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Alfafa, a rainha das forrageiras

Por Eng. Agr. Ricardo Adrián Muradas

               A Alfafa [Medicago sativa) conti­nua mantendo-se com o título de rainhas das forrageiras. Outros cultivos de espécies da mesma família das leguminosas podem ser tentados para substituí-la, mas a preferência mundial pela Alfafa é praticamente absoluta entre os criadores de cavalos. Originária do sudoeste da Ásia, seguiu o curso da cultura persa (Pérsia, hoje Irã), expandindo-se, posteriormente, a toda Europa. A América foi trazida pelos espanhóis, primeiro ao México, depois Chile e Peru e, posteriormente, à Argentina e Estados Unidos.

     O nome Alfafa é de origem árabe, etimologicamente, significa "melhor pastagem". Sua importância registra-se pela alta produtividade, elevado teor protéico, excelente valor biológico, riqueza em vitaminas como tiamina, cianina, riboflavina, ácido pantotênico e, fundamentalmente, caroteno associados a uma elevada concentração de sais minerais. Há de se destacar também a presença de fatores não identificados, de ação positiva na nutrição animal, observados em experiências comparativas de alimentação.

      A Alfafa é uma leguminosa perene, cuja raiz pode atingir mais de 12 metros de profundidade em solos favoráveis. Os talos são eretos e herbáceos, as folhas apresentam três folíolos ovais, com ápice dentado. As flores são pequenas, de coloração violácea, e as sementes pequenas e reniformes, geralmente de cor amarela-esverdeada. Existem inúmeras variedades de Alfafa, provenientes de diferentes países, todas adaptadas às condições climáticas dos lugares de origem. Após estudos de adaptação de 24 variedades, realizados no Posto de Fomento Luís Oliveira de Barros, do Jockey Club de São Paulo, e das numerosas introduções em diferentes regiões do Estado, os melhores resultados foram obtidos com o cultivar "crioula", originário do Rio Grande do Sul.

A Alfafa apresenta uma alta adaptação climática - desde climas frios até muito quentes -, se bem que o clima mais favorável seja o temperado. E, além disso, adapta-se a altitudes extremas - do nível do mar a altos vales. Em regiões chuvosas, quentes e de elevada umidade relativa do ar, seu crescimento é prejudicado devido à incidência de enfermidades.

 

 

 

Como plantar:

 

     Boa parte do êxito no estabelecimento da cultura de Alfafa depende da seleção da área para a implantação e da preparação adequada do solo. Requer solos férteis, bem drenados, arejados e profundos (devido às caracte­rísticas do sistema radicular), sem impedimentos - como casca-lhos, pedras ou camadas argilosas compactadas - à pene­tração. E desaconselhável, também, a presença de mapas freáticas superficiais e solos com declives acentuados. Em rela­ção ao pH (acidez) e nutrientes, a Alfafa não tolera solos ácidos. O solo ideal deve ter um pH próximo ao neutro (7), com elevados teores de matéria orgânica, fósforo, potássio, cálcio e micronutrientes como boro, enxofre, ferro e molibdênio.

   A preparação do solo deve ser esmerada, a fim de se conseguir uma boa cama de semeadura, destorroada e firme, livre de sementeiras de ervas daninhas (uma das principais limitações da cultura). Os tra­balhos de aração, gradeação, aplicação de corretivos e fertilizantes, assim como a incorporação de matéria orgânica, na forma de adubação verde ou estéreos curtidos, variam de acordo com as características físicas do solo (argiloso-arenoso) e das condições químicas (teor de nutrientes e acidez). Em solos argilosos a porosidade e profundidade podem ser melhoradas mediante arações profundas, subsolagens e a incorporação de estéreo curtido, à razão de 20 a 40 toneladas por ha, com consideráveis melhorias nas condições físico-biológicas do solo. Em solos arenosos, os trabalhos de preparação devem ser orientados para proteção contra erosão, melhorando-os estruturalmente com aplicações da matéria orgânica, para uma maior agregação de suas partículas.

    Os plantios podem ser realizados em duas épocas do ano: outono e primavera. O plantio de outono (março-abril) tem como vantagem principal a ausência de plantas invasoras que competem intensamente com a cultura em estabelecimento.

Nessa época de plantio, a irrigação artificial é de fundamental importância. O plantio de primavera (setembro-outubro) permite um estabelecimento mais rápido da cultura, mas com maiores problemas em relação às plantas invasoras, de mais difícil controle (herbicidas pré-plantio têm colaborado efetivamente para minimizar estes problemas). Outro fator contrário é a possibilidade de perda de sementes e da própria cultura por fortes chuvas.

   Em todos os casos, deve-se utilizar sementes de alto valor cultural e poder germinativo, livres de impurezas e, dentro do possível, com atestado de ausência de "cuscuta" (parasita afila). As boas sementes são amarelas-esverdeadas; as esbranquiçadas demonstram colheitas imaturas e, as escuras, sementes velhas ou mal-conservadas. A boa qualidade da semente é fator primordial para o êxito da cultura.

   Antes do plantio deve-se realizar a inoculação da semente com bactérias radicícola, microorganismos que se alojam na raiz. Este processo leva à constituição de nódulos que, quando em atividade, apresentam um interior de coloração rosada, devido à leghemoglobina. A coloração branca determina inatividade. Fixando gás carbônico do ar e água, as leguminosas convertem-se em carboidratos através da fotossíntese. Estes carboidratos se deslocam das folhas aos nódulos, onde servem como fonte de energia para a bactéria, que fixa nitrogênio do ar e o cede à leguminosa. O processo de inoculação consiste em umedecer a semente com água açucarada, leite ou solução de goma arábica a 10%  para servir de aderente às bactérias. As sementes devem ser muito bem misturadas ao inoculante e depois secas na sombra.

    A semeadura pode ser realizada de forma manual ou mecânica. Em ambos os casos pode ser a lanço ou em linha. O primeiro consiste em espalhar as sementes em toda a superfície do solo, cobrindo-as com uma fina camada de terra. Este sistema requer uma maior quantidade de sementes e tem, infelizmente, como principal característica a impossibilidade de um controle eficaz das ervas daninhas. A longevidade das culturas implantadas neste sistema é menor. Já os plantios em linhas, quando feitos a mão, são realizados utilizando-se garrafas que contêm, nas rolhas, um tubinho regulado para a saída de oito a dez gramas de sementes a cada 10 metros lineares, em sulcos rasos e de no máximo 5 cm de profundidade. As linhas devem manter uma distância entre 30 a 40 cm, para permitir melhor tratamento de limpeza. Após a semeadura deve-se cobrir as sementes com uma fina camada de terra.

    O plantio poderá ser realizado também por semeadeiras-adubadeiras, providas de unidade sulcadora e tambor de sementes, podendo regular-se a distância entre sulcos, densidade de sementes e profundidade, chegando a trabalhar com oito unidades plantadeiras ao mesmo tempo. Esta semeadeira é do tipo Brillon ou Stanhay, ambas importadas. Normalmente, a densidade para plantios a lanço é de 40 a 50 kg de sementes por ha, enquanto para os em linhas, utilizam-se de 25 a 30 kg de sementes por ha, quantidade dependente da qualidade das sementes. Depois de cinco a sete dias verifica-se a germinação com a saída das primeiras folhas. Durante todo este período, o solo deve ser conservado úmido, porém sem encharcar.

     O primeiro e realmente o mais sério problema que surge na plantação de alfafa é a invasão de plantas indesejáveis, devendo-se manter rigorosa vigilância e procurando eliminar-se qualquer surgimento de ervas daninhas. Decorrido um mês do plantio, com as linhas bem definidas, realiza-se a primeira capina, com dois objetivos fundamentais - eliminação de plantas invasoras e delimitação das linhas do cultivo. Neste caso, todas as plantinhas de Alfafa nascidas nas entrelinhas também serão eliminadas. Com o transcorrer do desenvolvimento, outras capinas serão necessárias para manter a cultura limpa, sobretudo após os cortes, onde a área recebe luz suficiente para estimular o crescimento de invasoras latentes, que são sempre uma grande ameaça à comunidade. Nessa ocasião é indispensável um acompanhamento para assinalar o surgimento do mato mais precoce e combatê-lo (áreas pequenas, capinas manuais, para áreas de produção comercial, herbicidas seletivos e enxadas rotativas múltiplas).

É muito importante, também, que se normalizem as fertilizações de reposição, com o objetivo de devolver ao solo o exportado nos cortes, seja como feno ou verde. As fertilizações e adubações orgânicas devem ser feitas a cada dois cortes, seguindo as recomendações de adubações obtidas a partir de análise do solo. Anualmente, devem ser tiradas amostras de terras a fim de orientar novas fertilizações ou correções de pH, alumínio, macro e micronutrientes.

Dependendo da época de plantio, e das condições climáticas no período de desenvolvimento, a Alfafa demora de 90 a 120 dias até o primeiro corte; posteriormente o ciclo varia de 25 a 35 dias, diminuindo na primavera e no verão e incrementando-se no outono e inverno. O corte deve ser realizado quando o alfafal alcançar um terço das plantas floridas. Esta condição indica que as plantas acumularam as reservas necessárias para nova brotação. Obten-se, então, uma forragem tenra, com pouca fibra, rica em substâncias nutritivas e de alta digestibilidade.

Cortada antes da floração, terá muito conteúdo de água e a rebrota será mais lenta. Se ultrapassar o período da floração, o conteúdo de fibras será maior e o valor nutritivo menor, obtendo-se menor número de cortes por ano. A altura do corte é da maior importância, devendo ser feito um pouco acima do colo (espa­ço entre a raiz e o caule) da planta ou zona de brotação, geralmente a 5cm do nível do solo. O corte realiza-se com alfanje ou com ceifadeira mecânica, segundo o tamanho da cultura.

 

 

 

Fenação, um ponto importante:

 

    O feno é a transformação do pasto verde em pasto dessecado, devendo manter o máximo de suas qualidades originais como cor, perfume, maciez, palatabilidade e princípios nutritivos. A cultura deve ser cortada após levantado o orvalho. Algumas horas depois de cortada, a massa começa a murchar, iniciando-se o processo de desidratação, em maior proporção nas folhas que no talo, devendo-se ter o cuidado para que, durante o processo, não haja queda de folhas, já que esta é a parte mais nutritiva da planta. Pode-se fazer a fenação ao sol, cortando-se a Alfafa e deixando-a murchar superficialmente; depois deve-se virar a massa para que a parte inferior acompanhe a desidra­tação. Após algumas horas, dependendo do sol, umidade relativa e ventos, a Alfafa será amontoada para continuar a secar mais lentamente, devendo ser revirada de tempo em tempo, a fim de se conseguir uma secagem mais uniforme. No dia seguinte, os montes ou leiras devem ser espalha­dos para receber algumas horas de sol. A seguir constrói-se montes maiores para continuar a secar, até alcançar o "ponto" de feno que é marcado pelo odor e pela coloração característica, aos quais o operador logo se habituará. Para isso, pega-se um pouco de Alfafa e torcer o máximo possível. Não surgindo umidade ou quebra, o ponto de feno foi alcançado e o material com cerca de 14 a 16% de umidade está em condições de ser enfardado ou armazenado para consumo. Também pode-se fazer a fenação à sombra. Depois do corte, deixa-a tomar um dia de sol e, então, recolhe-a num galpão, espalhando-se a massa cortada em estrados de madeira. As camadas não devem ser superiores a 50cm para evitar aquecimentos e perdas por fermentação. De tempo em tempo, a massa deve ser revirada com garfos para uma secagem uniforme. Após cinco ou seis dias, dependendo das condições climáticas, chega-se ao ponto de feno, detectável como no caso anterior ou, ainda, por outro método prático, que consiste em tentar descascar com a unha uma haste da planta. Se não conseguir, estará pronto o feno.

    A segadeira condicionadora possui atrás de sua barra de corte dois rolos de borrachas reguláveis que recebem o material cortado, espremendo-o. Estes rolos esmagam a haste, ficando assim o centro medular aberto. Isto facilita a velocidade de desidratação por ação direta do sol e do ar, reduzindo o tempo de fenação em até uma terça parte. São processos que auxiliam a fenação, principalmente em épocas de chuvas. No caso das desidratadoras, a vantagem é o aproveitamento total do material cortado, porém a viabilidade é questionada por serem processos de alto custo.

O grande valor de possuir a cultura no estabelecimento é a possibilidade de realizar-se cortes verdes diários, ofe­recendo à alfafa um único estágio de maturidade, favorecendo os trabalhos e diminuindo os custos.

   De acordo com o número de animais e da quantidade a ministrar-se a cada categoria animal, estima-se a necessidade a ser cortada por meio do cálculo de produção por metro quadrado. Este cálculo definirá o número de linhas a serem cortadas para alcançar a quantidade necessária. Outro sistema é dividir o número de linhas por 30 dias, cortando o valor de linhas resultantes e distribuindo a produção pelo número de animais, seguindo ordens prioritárias de categorias.

   Quando a alfafa alcançar 1/3 de floração, as linhas serão cortadas com alfanje, roçadeira costal, faca, tesoura, etc, a 5cm de altura e, logo depois, o material é recolhido em montes e retirado da parcela. A seguir realiza-se a capina de limpeza e afofamento da terra nas entrelinhas. Depois, aplica-se uma camada de estéreo ou composto curtido em toda superfície e, a cada dois cortes, será adicionado uma aplicação parcial de fertilizantes químicos, a fim de restituir-se os nutrientes exportados no verde. A irrigação seguirá os critérios de necessidades. Todas as tarefas de conservação e produção de alfafa podem ser realizadas por uma pessoa encarregada dos cuidados e dos cortes. A seqüência de trabalho é a que segue: corte, amontoado, capinação, adubação e irrigação, tarefas dentro das possibilidades diárias de trabalho. Após um mês de corte, haverá um escalonamento de produção, com linhas recém-cortadas e linhas em floração, próximas ao corte.

A duração de um alfafal estará em relação direta aos trabalhos de implantação e cuidados posteriores. Em solos profundos e ricos em elementos minerais, a média de vida é dez a 12 anos. Já em solos rasos, com subsolo impermeável, a média é de quatro a seis anos. Em algumas regiões com condições excepcionais para a cultura encontram-se plantios com mais de 60 anos.

A produção também apresenta variações dependentes das condições de clima, solo e manejo. No estado de São Paulo, pode-se considerar um número de sete a dez cortes anuais como um rendimento regular 15t. M.s/ha/ ano; bom, 25t. M.s/ha/ano; ótimo, 301. M.s/ha/ano (M.s.=matéria seca)..

Especial atenção deverá ser dada ao alfafal, no que se refere à sua sani­dade. Qualquer ocorrência estranha deverá ser comunicada ao Agrônomo, ou ao órgão de defesa (Instituto Biológico de São Paulo). Com certa regularidade, o encarregado percorrerá a área para inspecionar o aspecto da cultura e assinalar eventuais ocorrências estranhas como áreas amareladas ou murchas, ataques de pragas etc...

 

 

 

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